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domingo, 1 de maio de 2016

Depressão: um enfrentamento insuportável com a verdade


Artigo de Maria Rita Kelh

A depressão é uma forma muito particular e avassaladora daquilo que corriqueiramente chamamos a dor de viver. Juntamente com a angústia e a dor propriamente dita, é uma constelação de afetos tão familiar que, como escreve Daniel Delouia, dificilmente conseguimos classificá-la entre os quadros clínicos da psicopatologia. À dor do tempo que corre arrastando consigo tudo o que o homem constrói, ao desamparo diante da voragem da vida que conduz à morte – que para o homem moderno representa o fim de tudo – a depressão contrapõe um outro tempo, já morto: um “tempo que não passa”, na expressão de J. Pontalis.

O psiquismo, acontecimento que acompanha toda a vida humana sem se localizar em nenhum lugar do corpo vivo, é o que se ergue contra um fundo vazio que poderíamos chamar, metaforicamente, de um núcleo de depressão. O núcleo de nada onde o sujeito tenta instalar, fantasmaticamente, o objeto perdido – objeto que, paradoxalmente, nunca existiu.

A rigor, a vida não faz sentido e nossa passagem por aqui não tem nenhuma importância. A rigor, o eu que nos sustenta é uma construção fictícia, depende da memória e também do olhar do outro para se reconhecer como uma unidade estável ao longo do tempo. A rigor, ninguém se importa tanto com nossas eventuais desgraças a ponto de conseguir nos salvar delas. Contra este pano de fundo de nonsense, solidão e desamparo, o psiquismo se constitui em um trabalho permanente de estabelecimento de laços – “destinos pulsionais”, como se diz em psicanálise – que sustentam o sujeito perante o outro e diante de si mesmo.

Freudianamente falando, a subjetividade é um canteiro de ilusões. Amamos: a vida, os outros, e sobretudo a nós mesmos. Estamos condenados a amar, pois com esta multiplicidade de laços libidinais tecemos uma rede de sentido para a existência. As diversas modalidades de ilusões amorosas, edipianas ou não, são responsáveis pela confiança imaginária que depositamos no destino, na importância que temos para os outros, no significado de nossos atos corriqueiros. Não precisamos pensar nisso o tempo todo; é preciso estar inconsciente de uma ilusão para que ela nos sustente.

A depressão é o rompimento desta rede de sentido e amparo: momento em que o psiquismo falha em sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar. É o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade. Algumas pessoas conseguem evitá-lo a vida toda. Outras passam por ele em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. Mas há os que não conhecem outro modo de existir; são órfãos da proteção imaginária do “amor”, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo deles. “A depressão é uma imperfeição do amor”, escreve Andrew Solomon, autor de “O demônio do meio-dia”, vasto tratado sobre a depressão publicado nos Estados Unidos e traduzido no Brasil no final de 2002. Faz sentido, se considerarmos o sentido mais amplo da palavra amor.

Durante cinco anos, Solomon dedicou-se a pesquisar a depressão: causas e efeitos, tratamentos, hipóteses bioquímicas, estatísticas. Recolheu histórias de vida de dezenas de pessoas que passaram por crises depressivas – “nunca escrevi sobre um assunto a respeito do qual tantos tivessem tanto a dizer”. A estas, acrescentou sua própria história – o trabalho no livro foi uma forma de reação ao longo período em que ele próprio passou por sérias crises depressivas. Um período em que, nas palavras do autor, “cada segundo de vida me feria”.

A julgar pelos números recolhidos por Solomon em relatórios da divisão de saúde mental da Organização Mundial de Saúde – o DSM-IV – esta ferida acomete a um número cada vez maior de pessoas no mundo, e particularmente nos Estados Unidos. 3% da população norte americana sofre de depressão crônica – cerca de 19 milhões de pessoas, das quais 2 milhões são crianças. A depressão é a principal causa de incapacitação em pessoas acima de cinco anos de idade. 15% das pessoas deprimidas cometerão suicídio. Os suicídios entre jovens e crianças de 10 a 14 anos aumentaram 120% entre 1980 e 1990. No ano de 1995, mais jovens norte-americanos morreram por suicídio do que de da soma de câncer, Aids, pneumonia, derrame, doenças congênitas e doenças cardíacas.
Esta forma de mal estar tende a aumentar, na proporção direta da oferta de tratamentos medicamentosos: há vinte anos, 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje este número subiu para 5%. Sincero adepto dos tratamentos farmacológicos, que segundo ele salvaram sua vida, Andrew Solomon acaba por se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve, do mesmo modo que outros ramos industriais criam mercados para seus produtos.

 Insight sem inconsciente?

A contribuição das terapias medicamentosas no tratamento das doenças mentais é inegável, e o analista, assim como outros “terapeutas da fala” no dizer de Solomon, não pode dispensá-la. “O Prozac não deveria tornar o insight dispensável,”, diz Robert Klitzman, da Universidade de Colúmbia, citado pelo autor. “Deveria torná-lo possível”.

Mas qual o insight possível, capaz de produzir efeitos sobre a subjetividade, em uma cultura onde as práticas de linguagem se impõem fortemente de modo a apagar o sujeito do inconsciente? As histórias de pacientes depressivos enumeradas por Andrew Solomon centram-se ao redor da perspectiva única do vitimismo. As pessoas se deprimem porque não suportam o que foi feito a elas. Acidentes, perdas traumáticas, abandonos, violência, abuso sexual na infância; é de fora para dentro que a vida psíquica se impõe àqueles que sofrem de mal estar.

É óbvio que a rede de proteção do psiquismo pode ser rompida pelas irrupções traumáticas do real; mas as “desgraças da vida” recaem sempre sobre um sujeito, incidem sobre uma posição desejante e são rearticuladas pelas formações do inconsciente, que são formações da linguagem. Do ponto de vista do vitimismo, a cura da depressão consiste na eliminação de todo traço de “má notícia” que advenha do inconsciente. A psiquiatria e a indústria farmacêutica aliam-se a este ponto de vista. “Assistimos a um conluio curioso entre a descrição psiquiátrica e a própria queixa do deprimido”, escreve Delouia. “A ignorância a respeito do psíquico “une o fenômeno depressivo com a parafernália nosográfica da psiquiatria”.

O autor não deixa de ser crítico em relação a esta perspectiva. “Nós patologizamos o curável. Quando existir uma droga contra a violência, ela será encarada como uma doença”. Também é crítico em relação ao ideal de remoção química de toda a dor de existir. No entanto, a ingenuidade a respeito da realidade psíquica prevalece até mesmo em relação à sua própria crise depressiva. Filho de uma mulher ativa e absorvente, que mais tarde ele próprio pode perceber como depressiva, Andrew Solomon participou, junto com o pai e o irmão, do suicídio assistido da mãe, vítima de câncer no ovário aos 58 anos. Depois dessa morte, dramática e intensamente estetizada, a fantasia de suicídio ocorre aos outros membros da família. No ano seguinte, Solomon inicia uma análise com uma mulher que lhe lembra a mãe, e propõe a ela um pacto incondicional: não abandonarão o tratamento até o “fim”, sob nenhuma condição. Mas alguns anos depois,a analista anuncia ao dedicado analisando que vai deixar o trabalho. Aposentadoria por tempo de serviço…

No tempo de análise que lhe resta, Andrew Solomon não entende por que vai entrando em depressão cada vez mais grave, até que a própria analista concorda em que ele busque auxílio psiquiátrico. A análise “termina” pouco depois, e ele atravessa um ciclo de depressões gravíssimas. A inabilidade da analista de Solomon quanto ao manejo da transferência diante de um quadro de luto melancólico salta aos olhos do leitor familiarizado com a psicanálise. Não é sem razão que ele escreve, anos mais tarde, que a psicanálise seja “hábil para explicar, mas não eficiente para mudar” os quadros depressivos.

A julgar pelo relato de Solomon, seu tratamento psicanalítico foi baseado na reconstituição da vida infantil, em busca de um causalidade psíquica que, de fato, pode ter valor explicativo mas não produz nenhuma intervenção sobre o psiquismo vivo e ativo no sujeito adulto. Pierre Fédida, em seu livro sobre a depressão, adverte sobre os riscos de se buscar a evocação de um “acontecimento real que se supõe empiricamente traumático: a vivência infantil – essencialmente inatual na fala associativa – recebe assim uma positividade patogênica, na forma de uma atualidade passada”. O “infantil” que interessa à psicanálise não é o do passado, rememorado pelo eu, mas o que se manifesta ao vivo na transferência, nas demandas dirigidas ao analista. Como a analista de Solomon não se deu conta da relação entre a proposta de uma análise incondicional feita por ele, o amor pela mãe e o pacto de morte que o uniu a ela? Como não se deu conta da relação entre a crise depressiva de seu analisante e o anúncio burocrático de sua “aposentadoria”?

O livro de Solomon não oferece nenhuma contribuição decisiva para o conhecimento da depressão, mas lança uma luz importante sobre as relações entre a emergência epidêmica dessa forma de mal estar e os modos de subjetivação predominantes na cultura norte-americana. Em uma sociedade onde as formações discursivas apagam o sujeito do inconsciente, em que a felicidade e o sucesso são imperativos superegóicos, a depressão emerge – como a histeria na sociedade vitoriana – como sintoma do mal estar produzido e oculto pelos laços sociais. O vazio depressivo, que em muitas circunstâncias pode ser compensado pelo trabalho psíquico, é agravado em função do empobrecimento da subjetividade, característico das sociedades consumistas e altamente competitivas. A “vida sem sentido” de que se queixam os depressivos só pode ser compensada pela riqueza do trabalho subjetivo, ao preço de que o sujeito suporte, amparado simbolicamente pelo analista, seu mal estar. A eliminação farmacológica de todas as formas de mal estar produz também, paradoxalmente, o apagamento dos recursos de que dispomos para dar sentido à vida.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Redes sociais deixam 7 milhões de britânicos "deprimidos" ao ver a vida perfeita de seus amigos


 |  De Louise Ridley

Quase 7 milhões de pessoas ficam deprimidas quando acompanham a vida de seus amigos nas mídias sociais, revelou uma pesquisa, apontando que sites como Facebook e Twitter podem levar seus usuários a sofrer tristeza e sentir-se excluídos.

Segundo a pesquisa realizada pela Opinium, uma em cada cinco pessoas – ou seja, 20% – disse que se sente deprimida quando acompanha a vida de seus amigos online. 

Um especialista aconselhou as pessoas a reduzir o tempo passado nas mídias sociais, para “recuperar um pouco de controle” sobre sua própria vida.

São 6,9 milhões de pessoas que se sentem deprimidas com aquilo que os pesquisadores descrevem como o “jogo da vida” online: comparar-se constantemente com os posts deixados por outras pessoas e apresentar sua própria vida em atualizações frequentes.

Mais de metade (56%) das pessoas entrevistadas disse que sente pressão para usar as mídias sociais constantemente, e 10% delas revelaram que ficam deprimidas quando veem imagens de seus amigos se divertindo, sendo que elas próprias não têm nada melhor a fazer. 

A mesma parcela dos entrevistados sente infelicidade quando vê seus amigos saindo-se “melhor” que elas em matéria profissional, familiar ou financeira.

Nove por cento dos entrevistados disseram que ficam deprimidos quando veem as vidas “emocionantes” que seus amigos e contatos parecem ter.

De acordo com a pesquisa, uma em cada dez pessoas diz que fica envergonhada se um post que deixa nas mídias sociais não recebe curtidas, comentários, indicação como favorito ou se não é retuitado.
Uma em cada seis pessoas de 18 a 34 anos chega a tirar um post do ar se ele não recebe nenhuma interação.

Encomendada pela Privilege Home Insurance, a pesquisa revelou outros comportamentos negativos também: a maioria dos usuários das mídias sociais (56%) admitiu que “persegue” online seus antigos amigos, colegas de trabalho e parceiros, e 7% deles disseram que nunca postaram uma foto deles próprios sem primeiro retocá-la ou acrescentar um filtro.

Martin Talks é fundador da Digital Detoxing, que opera programas para “desconectar” pessoas. Ele disse ao HuffPost UK: “Acho que há uma correlação forte entre a quantidade de tempo que as pessoas passam online e os casos de pessoas que se deprimem porque acham que outras pessoas estão se divertindo mais online”.

Talks recomenda que você analise o tipo de amigos que tem no Facebook: “Se são o tipo de pessoa que vive postando imagens de sua vida perfeita, talvez você possa intervir. Na realidade, se fosse eu, eu deixaria de ser amigo de muita gente.”

“Essas pessoas não são suas amigas, na verdade. As pessoas não têm tantos amigos assim na vida real. Assim, o Facebook não passa de ficção de qualquer maneira – todo o mundo sabe disso. O mais importante é tentar recuperar o controle sobre sua própria vida nesse aspecto.”

Quase um terço dos entrevistados na pesquisa – 28% -- admitiu que sente pressão para postar conteúdos interessantes, enquanto 21% disseram que se sentem pressionadas para manter sua foto de perfil atualizada.

Sentir compulsão de verificar o que seus amigos andam fazendo é a experiência de 40% dos entrevistados. Mais de um terço – 36% -- sente-se na obrigação de gostar da foto de perfil de um amigo, suas fotos, seus comentários, posts ou tuites.

O comentário da Martin Talks, da Digital Detox: “A meu ver o mais importante é reduzir o tempo que você passa nas mídias sociais. Seria perfeito se você pudesse deletar os aplicativos de mídias sociais do seu telefone. Olhamos nosso telefone em média 150 vezes por dia. É uma loucura. Acho que no futuro vamos olhar para trás e achar uma insensatez passar tanto tempo olhando para nossas telas.”

Talks defende uma “desintoxicação digital” total, em que as pessoas desligam seus aparelhos digitais completamente. Mas fala que uma medida menos extrema seria “simplesmente adotar um pouco de disciplina: não ceder sempre aos apelos dos bipes, vibrações ou outros sons do seu telefone. Apenas olhe para o telefone em momentos determinados. Não olhe logo ao acordar nem logo antes de se deitar, senão seu dia vai começar e terminar mal.”

A pesquisa também perguntou aos entrevistados sobre as regras implícitas vigentes nas mídias sociais. Descobriu que hábitos como desejar “feliz aniversário” publicamente a um amigo nas mídias sociais é algo que 25% das pessoas sentem que precisam fazer, mesmo que já tenham falado pessoalmente com o aniversariante.

Uma parcela semelhante dos entrevistados – 22% -- disse que se sente na obrigação de aceitar quando um colega de trabalho pede para ser seu amigo.

A Opinium entrevistou 2.018 adultos no Reino Unido em março e calculou a estimativa de 6,9 milhões de pessoas, expressando esse número como porcentagem do número de usuários das mídias sociais no país.

Texto Original: BrasilPost


terça-feira, 26 de abril de 2016

O Bullying na minha vida: Primeiro contato com a depressão




Dentre diversos fatores que podem causar resultados traumáticos e negativos para a vida de um ser humano, nesse artigo, particularmente eu gostaria de destacar o tão conhecido Bullying. Não desejo que você leia aqui coisas óbvias e mesmices que não lhe tragam nenhum tipo de acréscimo de conhecimento, muito pelo contrário, o que eu puder fazer para que você leitor encontre novas fontes de aprendizado e força de apoio, farei com todo o prazer.

Por esse motivo em especial, acredito que não há nada mais sincero e verdadeiro do que escrever sobre aquilo que de fatos conhecemos, no sentido de ter vivido, para que desse modo seja possível enxergar um problema sob diversas perspectivas. Pensando nisso, resolvi compartilhar a minha experiência com o bullying, que foi um dos principais influenciadores e contribuintes para o desenvolvimento da depressão na minha infância.

Como se sabe, o primeiro contato definitivamente social de uma criança com o mundo é na escola. A partir desse momento ela passa a conviver com outras pessoas, e começa a aprender a viver de alguma forma longe dos pais, visto que, quando crianças, consequentemente vivemos o tempo todo sob proteção e vigilância dos mesmos. Devo dizer que sempre fui superprotegida. E eu definitivamente acreditava que a vida se resumia apenas a minha casa e meus pais e meus irmãos. Não desejava um contato com o mundo. Aliás, uma criança de seis anos já possui vontade de conhecer o mundo? Creio que não, embora haja a nítida e constante curiosidade presente nesse ser tão inocente e de certa forma puro.

Como tudo na vida, a primeira vez é sempre acompanhada de forte medo e insegurança, justamente pelo fato de não sabermos o que definitivamente nos espera. E como criança eu não queria ir para a escola, mas um dia chegaria a minha vez e eu teria de enfrentar esse primeiro desafio em minha vida. Com seis anos nós ainda estamos no processo de formação da nossa personalidade, e com toda certeza, exatamente tudo o que acontece conosco durante esse processo, influencia direta e indiretamente a qualidade de vida que teremos na adolescência e fase adulta.

Quando finalmente chegou o grande dia eu relutei e relutei em ir para esse novo lugar desconhecido, onde eu não teria o colo dos meus pais para me proteger quando fosse preciso. Eu tinha medo, e no fundo o meu medo teria futuramente um fundo de razão.

Você deve ter escutado de seus pais o quanto seria bom ir para a escolinha. Que você faria muitos amiguinhos e se divertiria muito. Todos a nossa volta de algum modo tenta nos convencer do quanto será bom aquela nova experiência. Eu me lembro do quanto eu chorei no primeiro dia. Antes mesmo de chegar o transporte para me levar a escola eu já tinha desidratado de tanto chorar. Mas novamente seus pais tentam te acalmar. Eles te fazem acreditar que o mundo lá fora é composto por pessoas boas, e só. Aí que está o grande erro.

Sinceramente não me lembro exatamente quando tudo começou, mas foi em 1999. Eu estava na pré-escola ou “prezinho” como chamam em São Paulo. Eu não tinha facilidade de me relacionar com os meus coleguinhas, simplesmente porque começaram a acontecer coisas que eu como uma inocente criança não entendia o porquê. Devo confessar que foi um período muito doloroso na minha vida. Embora eu tenha sofrido durante os quatro anos seguintes, 1999 marcou demais o início da minha vida social.

Quem sofre bullying dificilmente expõe esse problema no momento em que ele de fato está ocorrendo. Nós sentimos medo, vergonha. E acima de tudo: nos culpamos. Particularmente não houve um momento em que eu pedi ajuda para meus pais. Eles simplesmente descobriram, por que as marcas no meu corpo já não eram mais discretas. Minha mãe percebeu que eu estava vindo machucada e quis saber o que estava se passando comigo. Simplesmente foi aí que eu contei tudo. O quê? Além de ouvir coisas ruins sobre mim por intermédio de comentários maldosos dos meus colegas, eles me torturavam. Me batiam. Me mordiam. E me faziam sentir um medo que eu nem mesmo sabia que existia. Eu simplesmente não sabia mais o que era sorrir. A minha vida estava muito difícil, embora eu tivesse apenas seis anos. Eu chorava tanto. Eu sofri tanto.

Para tentar resolver essa situação, meus pais conversaram com a minha professora, e decidiu-se que eu seria transferida de turma, para não ter mais contato com esses colegas de classe. Me lembro de minha primeira professora: carinhosa, protetora e compreensiva. Infelizmente tive que deixá-la. Mas existia a esperança de mudar minha situação para melhor, então pela primeira vez me senti aliviada.
Engana-se quem pensa que mudar de classe mudou minha vida. Quer dizer, mudou sim, para pior. Eu continuei a sofrer maus tratos. Só o que mudou mesmo foram os agressores. Comecei a indagar o porquê então disso tudo? Por quê me batiam? Por que não gostavam de mim? Por que me desprezavam, me criticavam? Por que eu não tinha amigos? E foi nessa época, que eu, tão nova comecei a acreditar que o problema era eu. Comecei a me culpar, a me desprezar como ser humano. Comecei a entender que se eles faziam o que faziam era por que eu merecia. Por que eu era o que eu era.

O Bullying é basicamente o ato em que o indivíduo promove a humilhação do outro de todas as formas. Ele denigre a sua imagem. Ele não te respeita e se acha superior a você. E você acredita. Quem pratica o bullying não se preocupa com o bem-estar do outro. Como alguém que sofreu com isso eu diria que o bullying é a forma que pessoas fracas encontram para tentar aumentar a sua confiança e autoestima por intermédio do processo que consiste em machucar o outro seja física ou verbalmente. Expor o outro ao ridículo. Provocar a dor sem pensar nas consequências que isso causará no outro.

Posso afirmar que o bullying afeta e muito a vida das pessoas que sofrem com isso, independente da forma pela qual esse problema é exposto. O bullying afetou minha autoestima, minha confiança tanto para com os outros como para comigo mesma, minhas relações interpessoais, dentre muitos outros aspectos pelos quais eu até hoje luto para conseguir superar. Posso dizer que já não sofro mais por ter passado por isso em minha vida. Já não me culpo mais por isso, porque afinal de contas quem te problema nessa história toda é o próprio indivíduo que o pratica. Embora tenha tido muitos problemas decorrentes dessa época ruim, admito que hoje sou uma pessoa muito mais forte e que graças a Deus desenvolvi a empatia pelas pessoas. Já ouviu aquele negócio de que eu não quero para os outros o que eu não quero para mim? É mais ou menos isso.

Infelizmente esse é um problema que se faz presente até os dias atuais, e nós precisamos estar atentos quanto ao comportamento dos nossos irmãos mais novos, filhos, e pessoas que estejam de alguma forma presentes na nossa vida. Eles podem estar sofrendo em silêncio, assim como nós sofríamos. Devemos ajudá-los. As consequências que um sofrimento como esse traz para uma pessoa podem ser devastadores. Eu demorei anos e anos para superar isso. Tenho 21 anos de idade e só agora deixei de me culpar por toda a dor que sofri nessa época. Talvez uns superem mais rápido do que outros, mas dá para imaginar o que é viver anos se desprezando? Não possuindo confiança para fazer absolutamente nada na vida? Não possuindo aquela vontade de sair e conhecer o mundo e as pessoas que estão nele? Querer viver dentro de uma caixinha isolada? Enfim, não dá para descrever exatamente todos os sentimentos que envolvem um indivíduo que sofre com o bullying, mas dá para compreender o quão grave isso é para a vida de um ser humano.

Todos nós somos iguais. Não há ninguém melhor do que ninguém. Deus nos ama por igual. O que eu desejo a você, que assim como eu passou por isso, é que nunca perca a esperança na vida. Se você superou isso, me sinto imensamente feliz. Se você ainda sofre com isso, espero que o meu exemplo lhe ajude a enxergar que você não está sozinho nessa. Você é forte e capaz. Você vai vencer esse obstáculo na sua vida e ainda obterá benefícios e aprendizado por intermédio dessa experiência. E caso você leitor que possivelmente ainda esteja passando por isso, não exite em pedir ajuda. Quem está cometendo o erro nessa história não é você. Peça ajuda. Pense em você acima de tudo e queira para ti sempre o melhor. Não deixe nunca ninguém te fazer acreditar que você não tem valor algum, pois você é uma dádiva de Deus.

Texto Original: Psiconlinews